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Visita ao Museu Nacional de Belas Artes (pelo Google)

Eu poderia escrever uma crítica sobre qualquer filme ou série que eu tenha assistido nesses dias infinitos de confinamento, porque acredite, foram vários. Mas descobri algo muito mais interessante e poético do que qualquer filme ou livro que eu possa pegar em mãos, principalmente para o momento exato em que estamos passando.

Logo da plataforma. (Imagem: Divulgação)


Descobri uma coisa chamada Google Arts & Culture. E achei justo agora, sendo que ela existe desde 2011. 2011.


Apenas hoje, em 2020, eu descobri que posso explorar inúmeros museus, obras de arte e pontos turísticos ao redor do mundo, o que é muito conveniente e apropriado para esse momento, já que eu não posso nem ir até a esquina de casa.

Agora eu sei que eu poderia ter visitado todos os museus que eu visitei nos últimos nove anos em casa e de graça. O Museu de Belas Artes de São Francisco, a prisão na ilha de Alcatraz, o Guggenheim e o Museu de História Natural de Nova York, o Museu do Van Gogh, o East Side Gallery, a Pinacoteca, MASP, Museu do Amanhã, Inhotim… Todos do meu sofá, no banheiro ou deitada na cama às duas da manhã, tanto faz. Se eu quiser eu posso ver pinturas rupestres. Posso visitar Auschwitz e ter (quase) a mesma sensação que eu teria se estivesse efetivamente lá. Iria ver a exposição da Yayoi Kusama que eu tanto queria ter visto no Tomie Ohtake em 2014.

Lembrei que também nunca cheguei a visitar o Museu Nacional de Belas Artes mesmo indo tantas vezes ao Rio. Mas agora eu posso. E é exatamente isso que eu fiz. O Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro fica na Avenida Rio Branco, no centro da capital carioca e é considerado um dos museus mais importantes do Brasil. Possui 70 mil obras, entre elas, esculturas, pinturas, fotos e outros objetos que formam um conjunto de materiais fundamentais para a constituição da cultura e conhecimento que temos até hoje, que traduzem na centralização material da artisticidade e intelectualidade do Brasil desde sua criação, em 1908, como Escola de Belas Artes e instituído apenas em 1937 como museu.


Projeto da fachada do Museu arquitetado por Adolfo Morales de Los Rios (1908).

(Imagem: Divulgação)


A mostra online O espaço da arte, que foi exibida efetivamente no Museu entre o dia 13 de janeiro ao 27 de maio de 2018, retrata um momento de transição entre a arte moderna para a contemporânea, que refletia qual era o lugar e função da arte. No início do século XX, passou-se a questionar o fato dos artistas brasileiros basearem-se apenas nas vanguardas europeias para a produção de suas obras, sem valorizar e representar a cultura brasileira por meio das cores, movimentos e paisagens que caracterizam o Brasil — o que, mais tarde, dá vida à Semana de Arte Moderna, que ocorreu na cidade de São Paulo em 1922.

Nas obras que compõem a exposição demonstra-se a continuação desse movimento, com o questionamento do espaço da arte e o conceito de espaço na arte. Noções de profundidade, a falta de proporção, sobreposição e cor são bastante notáveis nas obras de Djanira na década de 1940.

O Circo (1944), de Djanira. (Imagem: Reprodução/Google Arts&Culture)



Lapa, Rio de Janeiro (1947), de Iberê Camargo. (Imagem: Reprodução/Google Arts&Culture)

Além da “noção de espaço”, o conceito de espaço como lugar propriamente dito também é bastante abordado nas obras de Iberê Camargo. O artista retrata as ruelas do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, dando foco aos edifícios e outras construções urbanas, o que não era alvo dos pintores da época, mesmo que fizesse parte da realidade e dia-dia da população brasileira.

O pintor Antônio Bandeira explora a arte como experiência, usando a tela como objeto de criatividade e expressão diante da conjuntura de 1953 — data em que a obra de arte foi produzida — despertando no espectador uma sensação de infinidade diante daquela tela palpável com medidas e proporções, como se pudesse nos levar para outra dimensão.

A grande cidade iluminada (1953), de Antônio Bandeira. (Imagem: Reprodução/Google Arts&Culture)

Em seguida, quase todas as obras passam a ser abstratas, sendo ela escultura ou pintura. É clara a intenção dos artistas de causar uma provocação no espectador que espera encontrar algo com forma ou um significado direto e compreensível, inclusive confesso que prefiro esse tipo de arte — a não abstrata.



Estudo da Industrialização do Brasil (1960), de Cândido Portinari (1960). (Imagem: Reprodução/Google Arts&Culture)


Forma abstrata (1954), de Sergio de Camargo. (Imagem: Reprodução, Google Arts&Culture)

Todas as obras disponíveis na exposição online podem ser analisadas de perto, dando zoom na tela do celular ou computador, assim é possível ver a textura e pincelada característica do artista e, se for uma escultura, é muito fácil identificar o tipo de material utilizado, imaginei até a sensação de tocar em alguns objetos. Algumas obras, inclusive, vêm com uma leitura da própria Arts & Culture, uma análise daquela arte e uma breve história do pintor autor.

É estranho e difícil criticar um museu baseado em uma plataforma do Google, mas estou cada vez mais impressionada com os diálogos que devagar se criam entre a arte e a tecnologia. Incrível poder pensar que posso visitar meus artistas favoritos e ter a cultura do mundo todo na tela do meu próprio computador. Para nós, confinados, isso é muito mais que arte, é também liberdade.

Corredor da Galeria de Moldagens do Museu. (Imagem: Divulgação)

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