top of page

OLÍVIA ALBERGARIA: Carnaval como espaço expositivo

  • Foto do escritor: Mariana Mariotto
    Mariana Mariotto
  • há 21 minutos
  • 6 min de leitura

Em entrevista, artista ambiciona a retomada de proposições coletivas e participativas


Desenho e tatuagem, colagem e design gráfico, fotografia e vídeo, costura e bordado… essas são algumas das múltiplas frentes que a estudante de artes visuais Olívia Albergaria, 22 anos, vem trabalhando nos últimos anos. Seja em sua pesquisa e investigação artística, quanto em trabalhos pessoais ao lado de amigos e colegas, Olívia já sabe o que precisa para seu próximo projeto: “dar conta das invenções”. Isso porque, segundo a própria artista, em entrevista para a Revista Galérica, um trabalho abre portas e se integra no outro, de forma que o último não existiria se não fosse o primeiro.


Em busca de proporcionar experiências integrativas e o manuseamento de obras de arte, a artista – muito inspirada em Hélio Oiticica e todo o ideal participativo da geração de artistas brasileiros nos anos 1960 e 1970 – almeja retomar propostas que convidem o público a se posicionar e se comportar no lugar de participante, e não espectador. “Enquanto estiver em espaço expositivo, meu trabalho há de ter uma sinalização de que é permitido manusear”, diz Olívia. É o que vemos em São quatro jogadores (2025), em exposição no MAB FAAP até o dia 1º de março. Nesta proposta, Olívia produziu uma máscara de Carnaval feita para ser usada por quatro pessoas, que se olham através dos tecidos. 


São quatro jogadores (2025), de Olívia Albergaria. Foto: cortesia da artista.
São quatro jogadores (2025), de Olívia Albergaria. Foto: cortesia da artista.

Já em 2026, a artista produziu máscaras carnavalescas de feltro ornamentadas por aplicações diversas. Sua proposta é vender as máscaras para serem utilizadas nos blocos e festas de Carnaval, colocando em pauta e em prática o tensionamento do lugar da obra de arte, que por sua vez sai do espaço expositivo e passa a ocupar as ruas: “Entendo que o carnaval em tudo tem a ver com a discussão sobre a participação que eu desejo engendrar. Produzir uma leva de máscaras para vender pros foliões [...] corrobora com a discussão que pretendo sobre o estatuto do objeto de arte”.


Hélio Oiticica e moradores da Mangueira aparecem vestindo os Parangolés no documentário Hélio Oiticica (2012), de César Oiticica Filho. Foto: still do documentário.
Hélio Oiticica e moradores da Mangueira aparecem vestindo os Parangolés no documentário Hélio Oiticica (2012), de César Oiticica Filho. Foto: still do documentário.

Para saber mais sobre Olívia Albergaria e seu trabalho artístico, leia a entrevista na íntegra a seguir: 


REVISTA GALÉRICA: Como você se aproximou das artes?

OLÍVIA ALBERGARIA: A primeira coisa que me ocorre para responder a isso é que eu sempre gostei de desenhar; quando penso no que me levou à formação em Artes Visuais, penso primeira e intimamente no desenho. Na infância, o desenho é uma linguagem espontânea; durante a adolescência eu me ative bastante a ela. Embora eu não pesquise o desenho e embora ele não tenha uma dimensão de projeto amadurecida na minha produção, ele é meu primeiro referencial. Entendo que o gosto pela escrita também tem relação com essa aproximação.


Você já percorreu diversos formatos artísticos… Há uma preferência por algum material ou caminho dentro do que você já fez?

Tenho prezado pela convivência das diferentes práticas. Há quase um ano descobri a costura e a partir dela o meu trabalho se volumizou, se tridimensionalizou, e adquiriu uma dimensão de objeto. O erguimento de coisas volumosas por meio da costura revelou – ou inventou – o procedimento que chamo de construtividade têxtil, ligado a uma investigação da participação, da dimensão de obra aberta e da noção de proposição. Atribuí à construtividade têxtil uma dimensão específica de pesquisa, no contexto da graduação, que não atribuí às demais práticas, mas algumas experiências recentes, muito valiosas, apontaram caminhos para uma integração.


Eu tenho preferência por todas elas e a minha máxima agora é dar conta das invenções. Se a construtividade têxtil foi quem falou primeiro dessa inquietação a respeito da participação, tenho achado cada vez mais que as outras práticas podem fazer coro, sobretudo porque me colocam em contato com outros artistas, com vizinhos de outros campos de atuação. Tenho almejado uma maior corporeidade e um maior ao vivo, entendendo que a discussão da participação não enfrenta, única e exclusivamente, o espaço expositivo tradicional.


Não fosse a construtividade têxtil, eu não poderia fazer trabalhos de dimensão figurinística para artistas da performance e do palco, e não poderia fazer máscaras carnavalescas para os foliões. Se não tivesse afinidade com o desenho eu muito provavelmente não tatuaria, e meu trabalho nas projeções cenográficas é sem dúvida influenciado pelo gosto que tenho em fazer foto.


A formação em artes visuais me impele a uma certa consciência de cada uma dessas práticas, o que não significa que todas têm o mesmíssimo caráter de pesquisa. As máscaras carnavalescas que estou fazendo agora têm a ver com uma tomada de posição frente a uma noção engessada de pesquisa; se quero pensar a participação e o enfrentamento do paradigma obra-espectador, e se faço máscaras – indubitavelmente ligadas ao carnaval –, não levá-las para a festa seria um desperdício para a pesquisa. 


Como você definiria sua obra?

A principal questão do meu trabalho, agora, é a participação. Quanto menos espectadores e mais participantes, melhor. Pensar o Brasil me interessa e agora entendo que discutir a participação no trabalho de arte pode ser um modo muito mais vigoroso de fazê-lo do que são os recursos de montagem, construção de sátira e justaposição de símbolos na toada da pop – como eu vinha fazendo antes da construtividade têxtil. Acho que uma boa definição é que, enquanto estiver em espaço expositivo, meu trabalho há de ter uma sinalização de que é permitido manusear. É isso que pretendo agora.


Como é a construção das máscaras de Carnaval?

Eu comecei a fabricar máscaras logo depois do carnaval de 2025 e esse foi o momento da descoberta da construtividade têxtil. Ao longo do ano, pensando nas noções de participação e relacionalidade, quis inventar máscaras que convocassem certos gestos (como São quatro jogadores, feita para ser usada por quatro pessoas) ou que expandissem a linguagem máscara.


A máscara foi a forma que me lançou essas primeiras questões e a construtividade têxtil se distanciou bastante dela, no decorrer do ano passado – o que eu acho ótimo –, culminando no sofá e na mesa de sinuca de Bandeiras novas, que fiz num êxtase com essas possibilidades construtivas. Decidi fazer as máscaras pro carnaval, então, pra voltar um pouco pra esse objeto que foi fundador, mas principalmente para tirar a construtividade têxtil de um lugar de pesquisa encapsulado e fazê-la circular de outra forma.


Os engessamentos pesquisatórios que comentei anteriormente me fizeram recusar, por um momento, o dado carnavalesco que a máscara inevitavelmente carrega, porque senti que ele se aproximava demais do comentário pop sobre Brasil que eu queria evitar. Agora entendo que o carnaval em tudo tem a ver com a discussão sobre a participação que eu desejo engendrar, e produzir uma leva de máscaras para vender pros foliões que se interessarem também corrobora com a discussão que pretendo sobre o estatuto do objeto de arte.


Não acho que essas máscaras que fiz sejam exatamente embelezadoras, mas são uma espécie de ornamento, e homenageiam o carnaval, que é pra mim a maior coisa da existência. É um movimento de integração do carnaval ao meu trabalho de forma totalmente assumida.


Em que momento você se sente mais inspirada? Há artistas em que você se inspira ou sua inspiração surge mais de lugares, experiências ou pessoas?

Lendo e entendendo e conversando com os colegas. Ando muito influenciada pelo primeiro contato que tive com as discussões do crítico Mário Pedrosa sobre o trabalho do Hélio Oiticica – embora sinta que só fiz um comecinho de entendimento – e pelas correspondências do próprio Hélio reunidas no livro Cartas 1962-1970.


Em 2025 participei do curso-grupo de estudos Ateliê de Arte e Psicanálise, com as professoras Flavia Corpas e Marcela Schwab, no Canteiro, e as discussões que tivemos sobre Bispo do Rosário e Rivane Neuenschwander me aceleraram muito. Agora, nesse exato momento, me sinto particularmente inspirada pelo jeito de trabalhar de artistas próximos a mim, de outras áreas de atuação, pela possibilidade de um chão comum de entendimento da prática artística, e pela leitura de O Corpo Encantado das Ruas do Luiz Antônio Simas. 


O que é ser uma jovem artista brasileira? Quais são seus desejos e expectativas sobre a sua entrada no mundo da arte?

Não sei dizer ao certo o que é ser uma jovem artista brasileira, mas estou muito contente com as experiências profissionais que venho tendo, sobretudo pela sua variedade. Foi muito bom investigar a participação na própria situação expositiva, nas exposições de que participei em 2025, e é muito bom colaborar com outros artistas, criar afinidades, pegar confiança, dar conta das invenções. Meus desejos estão bastante voltados ao campo institucional, à criação de espetáculos, a essa mesma convivência e colaboração e ao desenvolvimento de um mestrado.


Olívia veste múltiplas máscaras carnavalescas. Foto: cortesia da artista
Olívia veste múltiplas máscaras carnavalescas. Foto: cortesia da artista

*


NOTA

55ª Anual da FAAP

MAB FAAP

Rua Alagoas, 903 – Higienópolis

De terça-feira a domingo, das 10h às 18h

Até 1º de março de 2026

Entrada gratuita

Comentários


bottom of page