A Epopeia do Asfalto: seria a Odisseia o primeiro samba-enredo?
- Esaú Brilhante

- há 4 horas
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Ensaio analisa as relações entre a épica de Homero e a estrutura narrativa do samba-enredo
este texto é dedicado à Lorena Lopes da Costa, professora de história antiga e amiga
No livro Samba de enredo: história e arte, Luiz Antonio Simas e Alberto Mussa definem o samba-enredo como o "único gênero épico genuinamente brasileiro". Ao proporem que a poesia é indissociável da voz, os autores nos permitem traçar um paralelo fértil: a Odisseia de Homero poderia ser lida como uma forma de "samba-enredo”. Embora soe como uma provocação teórica diante do rigor acadêmico tradicional, tal proposta serve como um exercício prático poderoso. Não se trata de uma leitura anacrônica, mas de um diálogo entre formas análogas que preservam suas respectivas historicidades.
A comparação entre a herança afro-brasileira e a antiguidade clássica, embora ainda encontre resistências, possui precedentes valiosos. Como aponta o professor de História Antiga da UFF, Marcos Alvito:
O povo ateniense era conhecido por sua energia e vivacidade: quando gostava da peça, a multidão batia os pés nas arquibancadas de madeira do teatro; caso contrário, arremessava comida nos atores.... Os templos gregos eram multicoloridos e, se hoje o Partenon é descolorido, isto se deve à ação do tempo e da poluição. Atenas era quente e movimentada como uma favela carioca. E os gregos já sabiam tocar pandeiro…
I. A Pulsação do Mito: O Hexâmetro e o Surdo de Primeira
O primeiro ponto de convergência entre a Odisseia e o samba-enredo é a oralidade, partindo da premissa de que a poesia, em sua essência primordial, pressupõe o ditar e o ouvir. Na Grécia Antiga, a narrativa de Odisseu não era um texto estático, mas uma performance viva articulada em hexâmetros dactílicos, isto é, um verso de seis compassos rítmicos baseado no dáctilo (uma batida forte seguida de duas) que, como observa o professor de Língua e Literatura Grega Christian Werner, funcionavam como uma mnemotécnica sofisticada — a "máquina" da memória. Essa métrica rigorosa sustentava o fluxo narrativo por meio de fórmulas e expressões fixas que permitiam ao rapsodo, o poeta popular que recitava poemas épicos, navegar por milhares de versos sem naufragar no esquecimento. Ao citar o Canto I — "Fala-me, Musa, do homem de múltiplas estratagemas..." —, evocamos a versão de Trajano Vieira, que busca resgatar a materialidade sonora do épico. Para ele, a tradução deve ser uma transcrição que preserve a pulsação original, pois o hexâmetro grego não é apenas métrica, mas uma dança verbal, um ritmo que se impõe.
No universo das escolas de samba, o surdo de primeira desempenha um papel rigorosamente análogo: ele é o pulso telúrico, a batida que organiza o caos e garante que a comunidade cante em uníssono. Nessa frequência ontológica, o samba-enredo é um poema desenhado para o movimento: se o hexâmetro de Homero é o "passo" do herói em sua jornada, o compasso binário do samba-enredo é o "passo" do componente que atravessa o asfalto. Simas e Mussa apresentam essa caracterização ao discutir a natureza funcional do gênero. Eles argumentam que o samba-enredo é uma obra composta para o deslocamento.

II. A Engenharia da Memória: O Enredo Teórico e os Blocos Narrativos
A estrutura do que Simas e Mussa definem como "enredo teórico" — a construção intelectual que precede a plástica do desfile — guarda semelhanças funcionais profundas com a arquitetura da jornada de Odisseu. Ambos os gêneros compartilham uma função de exaltação, cujo objetivo é apresentar ao demos (povo) seus próprios mitos, transformando a performance em uma tribuna da História a céu aberto. Como destaca Christian Werner, a Odisseia é composta por “blocos de memória”: unidades temáticas que o público reconhece instantaneamente, como o banquete ou a hospitalidade. A constituição formal da Odisseia, em sua não linearidade, remete mais a esse “blocos” reconhecíveis de uma coletividade, do que o desenrolar de uma história fechada em si.
No contexto do Carnaval, esses blocos se materializam nas alas e alegorias, segmentando a história em módulos visuais de fácil legibilidade. Logo, em uma apresentação de Samba-Enredo de uma escola temos: Comissão de Frente; Primeiro Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira; Abre-Alas; Setores de Alas e Alegorias Intermediárias; Bateria; Ala das Baianas e Alegoria de Encerramento. Dentro dessa engrenagem, os refrões do samba, conhecidos como "bis", operam de forma análoga às fórmulas homéricas: são pontos de ancoragem emocional que garantem a coesão no transe da avenida. Herdados de uma tradição afro e duramente reprimidos no período da Primeira República (1989-1930), essas formas de se pensar o tempo e sua herança reaparecem na única forma que é possível existir: como fruto do trabalho das mãos racializadas.
Assim como o epíteto repetido ("Odisseu, o astuto") conferia estabilidade ao poema, o refrão no samba oferece ao espectador um porto seguro, uma síntese do mito que sedimenta a memória auditiva.

III. A Escultura da Voz: Do Epíteto Grego ao Enredo Plástico
A distinção entre o "enredo plástico" — as alegorias e fantasias — e o samba propriamente dito encontra eco na tensão dialética explorada por Gotthold Lessing (1729-1781). Para o poeta e dramaturgo alemão, enquanto a pintura se organiza no espaço, a poesia é uma arte do tempo. Contudo, a epopeia homérica e o samba-enredo desafiam essa fronteira ao não separar em sua concepção o ritmo e a visualidade.
No Carnaval, as dimensões auditiva e visual operam em simetria absoluta; na Epopéia, essa visualidade era intrínseca ao próprio texto, cuja oralidade era moldada pela capacidade do verso de projetar imagens nítidas no ouvinte. Quando Trajano Vieira traduz epítetos como "Atena de olhos de coruja", ele recupera a plasticidade do verso grego, transformando ícones verbais em adereços cognitivos que identificam divindades, tal qual um carro alegórico materializa um mito que só existe ao passo que se materializa – como exige o gênero do samba-enredo.
Essa fusão entre a narrativa cantada e a sua exposição física configura o que Mikhail Bakhtin (1895-1975) define como “cronotopo”: a correlação intrínseca das relações temporais e espaciais assimiladas artisticamente. No desfile, o tempo do samba (ritmo) e o espaço da avenida (plástica) fundem-se em uma unidade narrativa inseparável. A “écfrase” permanente — a descrição viva de objetos e cenários — aproxima a técnica do recitador da epopeia clássica da concepção cenográfica das escolas de samba, onde o enredo deixa de ser uma abstração para se tornar um mundo habitável. A tradução de Vieira revela que o hexâmetro não era apenas som, mas uma ferramenta de desenho: cada sílaba longa situava o herói em um espaço visível, transformando o "passo" da métrica na medida exata da ocupação do território, provando que a epopeia é o triunfo da imagem sobre o tempo.
IV. O Rito do Asfalto
Ao aceitarmos a relação do samba-enredo com a tradição épica, como a Odisseia, entendemos uma antiguidade não mediada pelos europeus modernos em busca de sua teleologia, mas de uma antiguidade em contato permanente com diferentes culturas através do mediterrâneo e do continente africano. A partir das provocações de Simas e Mussa sobre o caráter épico do gênero do samba-enredo e suas característica da herança afro, lemos a métrica da Odisseia, estudada por Werner em sua funcionalidade mnemônica e por Vieira em sua busca pela materialidade sonora, revelando uma técnica rítmica como uma arquitetura social muito eficiente e diferente de uma institucionalidade moderna. Essa aproximação evidencia que a epopeia e o samba são, no fundo, um trabalho de sobrevivência cultural e antídotos poderosos contra o Lete, o rio do esquecimento.
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