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"O fotojornalismo não é feito para agradar"


É assim que Gabriela Biló, fotojornalista da Folha de S. Paulo desde 2022, responde às críticas que recebeu pela imagem que estampou a capa do jornal em janeiro deste ano. A fotógrafa, que já venceu os prêmios Vladimir Herzog, IREE e Mulher Imprensa, apresenta o trabalho de uma década no livro A verdade vos libertará (Editora Fósforo, 2023). A obra reúne imagens dos principais acontecimentos sociopolíticos do Brasil desde 2013, passando pelo início das manifestações de rua até a invasão ao prédio dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023 – cenário do grande debate midiático acerca de sua fotografia.


A polêmica imagem retrata Luís Inácio Lula da Silva, atual presidente da República, sorrindo enquanto ajusta sua gravata. Um vidro baleado se revela à direita. Seu posicionamento na foto sugere que um tiro tenha sido disparado exatamente no local do coração do presidente, coisa que, na verdade, nunca aconteceu. Muito pelo contrário: de acordo com a própria fotógrafa, que explicou como produziu a imagem em um vídeo no Instagram, o vidro estava a cerca de 30 metros de distância da localização de Lula.

Lula e estilhaço em sobreposição, 2023 (Imagem: Reprodução/Gabriela Biló)


O fato é que a imagem em questão foi produzida a partir de múltipla exposição, técnica que pode ser realizada tanto por meio de câmeras analógicas como digitais e é amplamente conhecida e praticada pelos amantes da fotografia. Trata-se da sobreposição de duas ou mais imagens em um mesmo espaço; não é uma imagem adulterada ou posteriormente tratada. Mesmo que o recurso tenha sido explicitado na legenda, a imagem polemizou. No Twitter, somaram-se 1,3 mil comentários e no Instagram 2,4 mil, em que apenas um ou outro são positivos.


As opiniões dividiram-se entre quem é a favor ou contra a técnica. Se o trabalho de Biló pode ou não ser considerado fotojornalismo. Há quem critique apenas o timing da publicação, já que foi "próxima demais" do movimento antidemocrático: "Uma foto que não contribui com o momento que vive o país, ainda mais publicada em um jornal de impacto nacional", comentou David Almansa, vereador do Partido dos Trabalhadores (PT).


Não é a primeira vez, entretanto, que a Folha opta por utilizar imagens fruto de múltipla exposição, realizadas pela mesma fotógrafa, na capa do jornal. Dias antes da foto de Lula, foi utilizada a imagem da atual Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, sobreposta à copas de árvores. Há quem tenha visto dois chifres demoníacos (que parecem mais orelhas de gato) no topo da cabeça da Ministra. Neste caso, porém, dentre os quase 300 comentários no Instagram da fotojornalista, apenas 12 são negativos.

Sobreposição de Marina Silva, 2023 (Imagem: Reprodução/Gabriela Biló)


É necessário afirmar, portanto, que a foto de Lula não recebeu críticas por sua técnica ou pelo timing – não é sobre isso. O debate aconteceu em torno da semiótica da imagem: seus simbolismos e possíveis significados, levando em consideração os personagens envolvidos na foto e o caráter artístico que Biló agrega em seu trabalho.


Foto-charges

Sempre carregadas de símbolos, ambiguidades e reflexões, as fotografias de Gabriela Biló são, ao mesmo tempo, uma crítica e sátira. Como charges em forma de foto. A maneira como a fotógrafa brinca com angulações e outras ilusões de ótica evidencia a multiplicidade de realidades que, por sua vez, dependem de um olhar, de um ponto de vista.

Sérgio Moro e Jair Bolsonaro em fotografia de 2019. (Imagem: Reprodução/Gabriela Biló)


Os ângulos e enquadramentos escolhidos pela fotojornalista são essenciais para a construção da narrativa de suas imagens. Cada ângulo gera uma nova foto que contém em si seu próprio significado. Jair Bolsonaro, posicionado em frente a Sérgio Moro, estampa um leve sorriso no rosto, sua mão direita imita uma arma e aponta para a cabeça do então Ministro da Justiça, que está abaixada. A composição sugere uma relação de subordinação entre os personagens retratados, porém, na realidade, Bolsonaro não está de fato olhando para Moro; seu olhar se concentra em outro horizonte. Sua mão está apontando para outra pessoa, alguém que sequer foi enquadrado na foto. É o pensar dessas pequenas narrativas dentro de uma mesma imagem que se baseia o trabalho de Biló. Esta fotografia, que também viralizou, foi capa do jornal impresso do Estado de S. Paulo em 2019.

Estátua do STF é lavada, 2023. (Imagem: Reprodução/Gabriela Biló)


Clicada em 2023, Biló retrata a escultura localizada em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, recebendo uma lavagem de água: essa é sua primeira e mais objetiva mensagem. Não há ilusão de ótica alguma, o que está em questão é a importância da contextualização da imagem para a construção de sua segunda narrativa: Justiça, esculpida pelo artista brasileiro Alfredo Ceschiatti em 1961, foi pichada durante a invasão do dia 8 de janeiro. Tendo essas informações em mente, a imagem, que agora pode ser melhor interpretada, mostra a justiça, a ordem e a democracia sendo restauradas e restabelecidas após os vandalismos da Praça dos Três Poderes. Os tons de azul, cinza e branco presentes na imagem, assim como os pingos de água espalhados por toda a foto, geram uma sensação de alívio, respiro, paz e renovação. São águas passadas.


Arte e jornalismo

As fotografias de Biló possuem a capacidade de sugerir múltiplas narrativas por meio de fotos, alternativas ao que objetivamente se apresenta. Essas narrativas são compreendidas somente por meio de interpretações que, por sua vez, são baseadas em pontos de vista, opiniões fruto da experiência de cada um. Um usuário do Twitter disse que a imagem de Lula "É ofensiva a nosso presidente. Parece que ele levou um tiro". A pesquisadora Lilia Schwarcz questionou: "Para que serve esse tipo de 'brincadeira' leviana? Mostrar a fragilidade do governo Lula?". De acordo com a própria fotógrafa, "Pra mim [a imagem] significava [que] a vida continua" (levando em consideração o 8 de janeiro).


Esse caráter sugestivo e reflexivo apenas reaproxima sua fotografia da prática artística. Susan Sontag diz: "Embora em certo sentido a câmera de fato capture a realidade, e não apenas a interprete, as fotos são uma interpretação do mundo tanto quanto as pinturas e os desenhos".


A fotografia é uma linguagem artística que também possui entre as finalidades proporcionar questionamentos sobre o mundo. Justamente por fugirem da norma tradicional fotojornalística que as imagens de Biló geram tanto impacto e garantem sua relevância na documentação histórica e sociopolítica do Brasil.


Em 2019, Gabriela Biló foi a primeira fotojornalista mulher do Estado de S. Paulo e rapidamente se transformou em cobertura fotográfica política. Mostrando-se cada vez mais uma importante interseção entre o jornalismo e a arte, Biló consegue, por meio de fotografias, relativizar o objetivo e o subjetivo, aproximar o jornalismo da arte e da poesia. Recompõe-se aquilo que, para Sontag, é básico no ato de fotografar: a vontade de "transformar a experiência em um modo de ver".


"Quando você olha uma imagem que eu fiz, você está literalmente olhando como eu vi. Está cheio de interpretações. E como eu vi, não tem como você desvencilhar do como eu me sinto em relação àquilo. Porque é você. São todas as suas referências [...]. Isso tudo sai ali no frame. Então não tem como você dizer que aquilo é isento ou é objetivo ou não é arte." – diz Biló

Lançamento do livro

A verdade vos libertará, de Gabriela Biló, foi organizado por Daniel Lameira, com o designer Pedro Inoue e a dupla Pedro Daltro e Cristiano Botafogo, do podcast Medo e Delírio em Brasília. O livro ainda conta com textos explicativos assinados por Atila Iamarino, João Wainer, Juliana Dal Paiva e Patrícia Campos Mello, além da participação do artista Criolo e da jornalista Miriam Leitão. Publicado em abril pela Editora Fósforo, 2023.


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NOTA

Esta crítica foi escrita originalmente para o 'Laboratório de Escrita Crítica e Editorial', ministrado por Paula Alzugaray, Nina Rahe e Leandro Muniz, uma parceria da plataforma Zait Art e da revista Select_Celeste.

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