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O que vem depois da escrita

Em depoimento, Mariana Mariotto discorre sobre a escrita de seu livro de estreia Amar Só


Não sei exatamente quando me apareceu a ideia de escrever um livro. Já faz tanto tempo… acho que nem existe uma data ou situação específica que tenham me levado a isso. Só fui juntando a quantidade enorme de material que tinha sobre um mesmo tema e decidi, sem muita (mas alguma) cerimônia, que queria publicar. Eu não queria publicar pelo dinheiro (são poucas as pessoas que realmente fazem dinheiro com poesia), ou porque queria reconhecimento. Publiquei porque quis, faço isso por mim. Pela primeira vez, algo por mim, para mim. É um alívio.


Não precisa ser muito próximo para saber que é raro eu fazer qualquer coisa sem conseguir pensar nos outros. Acho que esse é meu maior defeito, o meu maior problema. E talvez por isso tenha sido tão difícil publicar.


Não acho que seja a "pressão de uma primeira publicação", eu nunca tive medo da primeira vez pra nada. Tudo que fiz foi sempre de cabeça; se me dou mal ou não é um problema para depois. O fato é que os poemas são especialmente pessoais – ainda que não se tratem só de mim. Mas até aí, que poeta não é extremamente pessoal, sentimental e até meio dramático?


Meu livro é feito de poemas copiados dos meus diários. Tem coisa aí de uma versão coitada de mim de 19 anos, se sentindo boba por escrever qualquer coisa em verso, sem realmente saber o que era poesia e o que os seus poeminhas poderiam se tornar. Uma parte do material também foi cortada. No livro constam cerca de 95 poemas;  acho que foram escritos, na verdade, uns 110 – parei de contar. Um alívio.


Acontece que, sem querer, fiquei viciada em escrever sobre isso: tinha dias que escrevia dois ou três poemas, só porque realmente não conseguia pensar em outra coisa. Acordava no meio da noite com palavras na minha cabeça. Escrevia antes de dormir ou logo ao acordar. Ou no meio da sala de aula. Ou às três horas da tarde. E parte de mim não conseguia realmente traduzir em palavras o exato estado de perfeição que habitava minha memória. Quando admiti isso para mim, que talvez não iria conseguir escrever sobre tudo, e que talvez o conjunto de tudo fosse o que tornava o livro especial, consegui parar de escrever. Um alívio.


Li certa vez, em algum lugar que não vou saber dizer qual, que tristeza mesmo quem sente é o poeta, que faz da própria tristeza a sua produção. Imagina mastigar tristeza até escrever 110 vezes sobre a mesma dor. É pensar demais, remoer demais. Se colocar, voluntariamente, em uma situação de vulnerabilidade sem aguentar mais o peso que isso carrega. Tristeza era tudo que eu sentia e sabia, e assim fiquei por um ano, até terminar o livro. Ele é (foi?) literalmente, a minha cabeça. Era só nisso que eu pensava. Eu vivia a vida fora de mim e fingia que estava presente. Não me lembro de quase nada que aconteceu em 2022. Só sinto uma vontade enorme de chorar.


Entrei do nada no mundo editorial, também sem saber muito sobre qualquer coisa: enviei o livro para várias chamadas, sem muita esperança mas com alguma mínima expectativa. Eu estava no MASP quando recebi um email dizendo que fui selecionada para publicar meu livro, e imediatamente fiquei nervosa porque ainda não tinha decidido na minha cabeça se isso era uma coisa boa ou ruim. Era boa porque ia conseguir realizar essa vontade, mas ruim porque, fazendo isso, ia me expor, talvez definitivamente, pra todo mundo que o lesse.


SELECIONADA. Essa palavra... ainda não consegui me dar o menor crédito, nem por isso. Esse é outro defeito meu: quando falo sobre meu livro, digo "meu livrinho". É verdade que não conseguia sentir muito orgulho das coisas que faço, mas também é verdade que estou exausta de dizer como sou “fraca, incapaz e inútil”. No dia em que a campainha de casa tocou, soube imediatamente que era a tal caixa tão esperada contendo meus "livrinhos" e confesso que a felicidade não era pouca. Quase beijei o carteiro. Abri aquela caixa e os vi exatamente como os desenhei na minha cabeça, desde o princípio. Senti orgulho. 


A gramatura das páginas, a capa, meu nome ali estampado. É muito estranho ver meu nome escrito em coisas, ou saindo da boca de outras pessoas. Percebi que sou presente na vida, que o que faço é real, existe, e as pessoas também conseguem enxergar. Vejo o rosto dessa menina na fotografia da orelha: os olhos profundos, o sorriso quase lá, os cabelos longos de alguém que não quer se desfazer de nada... Consigo ver e sentir a mesma tristeza que ela sentia nessa foto. E não consigo deixar de ficar, no mínimo, feliz. Senão por mim, por ela. E isso também é um alívio.


O dia do lançamento do livro finalmente chegou e aí tudo se confirmou. Ali já não tinha mais dor alguma, já não tinha sofrimento, era só festa. A Minha Festa de Adeus. Dia de me despedir da história, da memória, do vício, da insistência, da distância. Era o dia do perdão. Pra mim mesma. Um alívio.


Acho que planejei esse dia na minha cabeça por um ano e acabou sendo melhor do que estava imaginando, apesar de não ter conseguido comer ou beber direito, de tanto que falava com as pessoas. Minha professora da terceira série apareceu, nos abraçamos. Minha família toda, alguns colegas de trabalho. Minhas amigas mais próximas vieram; ao ver todos seus rostos juntos, colados, olhando de volta para mim, percebi que há anos não nos reuníamos todas em um mesmo lugar. Me veio a mesma sensação de quando as via na escola: de alívio.


Chorei um pouquinho, pedi um copo d'água. Me deram champanhe.


Ninguém perguntou sobre o que é tudo isso que escrevi. Ninguém me chamou de ridícula, maluca ou boboca; muito pelo contrário. Disseram que sou sincera, sensível, corajosa. E vai ver que sou mesmo; mas por essa eu não esperava. Escrever um livro foi difícil, publicar foi mais ainda. Mas, uma vez publicado, toda essa dificuldade se foi. As palavras parecem ter perdido o peso e se transformado num simples conjunto impresso numa folha de papel. Elas carregam em si algum tipo de sentimento e significado, agora descolados de mim. Deixaram de ser Eu, deixaram de ser Meu Diário, agora são… livro. É um alívio.

Bandeira confeccionada por Paula Goto (Imagem: Mariana Mariotto)



Serviço

Amar Só, de Mariana Mariotto

Capa: Jéssica Iancoski e Mariana Mariotto

Gênero: Poesia

Páginas: 110

Onde comprar: Editora TAUP - R$ 45,00

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1 Comment


Sempre uma delícia ler tudo o que escreve. Amo ver-te, Mari, querida.

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