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Escuta-se uma literatura gritante

Valendo-se de reflexões propostas por Conceição Evaristo, ensaio aborda a maneira como a literatura nos permite gritar


Minha mãe conta que gritou quando eu nasci. Meu pai, médico e estudioso de opióides, afirma não ter escutado som algum; e  explicou não ser possível a boca de minha mãe entrar em movimento, afinal, ela estava anestesiada demais para me parir por meio de um corte feito na barriga. Desse corte, saiu uma filha, seu sangue e um grito silencioso, que só ela (e talvez eu) foi capaz de escutar. O grito se tornou um choro, de uma bebê e de uma mãe; elas choram e gritam como se fossem um corpo só. Dizem que, depois de eu ter partido do corpo de minha mãe, fui um bebê que chorava muito. Layne Redmond me marcou quando escreveu "Diz-se com frequência que o primeiro som que se ouve no útero é o das batidas do coração da mãe. Na verdade, o primeiro som que faz vibrar o aparato auditivo recém-desenvolvido é o do sangue da mãe pulsando nas veias e artérias. Vibramos com esse ritmo primordial antes mesmo de ter orelhas para ouvir''. Meu choro, parece, era tanto porque chorava os sons carregados por minha mãe dentro de si. Escutei o grito de minha mãe e o reproduzi, mas me pergunto: quem mais estaria com os ouvidos disponíveis para escutar esses gritos? 


O ar sai de nossos pulmões, penetra a traqueia e, volumoso, chega à laringe. Na laringe, as pregas vocais vibram quando o ar passa como um vento sazonal, produzindo o que chamamos de som. O som é transformado em fala ao mesmo tempo em que damos movimento à língua, boca e lábios. Nesses espaços molhados do corpo, o grito audível passa para ser escutado por um ouvido do mundo. Da laringe ao ouvido existe um amplo espaço que os distancia. Muitas vezes, seu próprio ouvido será o único ouvinte. Podemos escolher quando iremos gritar e como faremos isso, sendo o cérebro, o grande orquestrador desses movimentos. Abrir a boca. Soltar a voz.

Mexer os dedos. Escrever. 


Esses dias, minha avó, que mora longe e aprendeu a usar os meios digitais de comunicação, me enviou uma reportagem na qual um neurologista chamado Tarso Adoni afirma que a boca e as mãos desempenham as ações mais delicadas do corpo, ocupando a maior parte da área motora. "Giulia, por isso eu te digo que tu tem que comer bem e parar de estalar os dedos". Da sua forma, minha vó está atenta aos meios disponibilizados pelo corpo para podermos gritar. Grito pela boca e pelas mãos, é preciso cuidar dessas ações delicadas. E por delicada, me refiro à algo que provoca ruptura nos solos de concreto da sociedade ameaçadora. Ação delicada é aquela que vem das profundezas do corpo, transmitindo as diferentes dores do mundo.


Em A Hora da Estrela (1977), Clarice Lispector nos lembra ser possível gritar por meio da literatura: “Porque há o direito ao grito. Então eu grito. Grito puro e sem pedir esmola”. É possível que nossas mãos ecoem nosso grito através da escrita. Porém, nem tudo é captado pelo corpo de outras pessoas. Para refletirmos sobre isso, é importante trazer a diferença entre ouvir e o ato de escutar. O ouvido está recebendo os sons emitidos pela vida. A vida é nada silenciosa, sempre tem um movimento acontecendo, por menor que seja, como o chuveiro mal fechado. Só reparei nesse ruído quando parei para escutá-lo e transformar em palavras os sons ecoados pelo meu ambiente. Agora que fechei o registro completamente, com força, não escuto mais o som ao qual meus ouvidos tinham se acostumado por mais de duas horas tão logo saí do momento no qual lavava meu corpo. Nosso ouvido escuta quando colocamos nosso corpo como experiência de mundo. Para escutar, é preciso prestar atenção ao que está sendo dito pelas diferentes vozes do mundo, parecidas ou não com nossa vivência de corpo-terra. Nossos ouvidos fazem parte da cultura e reproduzem o que essa cultura torna valoroso. Veronica Stigger, em seu texto O Útero do Mundo (2016), considera que "gritar é, em certa medida, libertar-se, romper as frágeis barreiras que delimitam aquilo a que convencionamos chamar de 'cultura' (que abrange, entre outros aspectos, uma série de regras de conduta), em oposição à 'natureza', isto é, em oposição ao que há de selvagem e indomável em nós". Para escutar, é preciso romper o tímpano do sistema e, nessas brechas, encontrar espaço para o grito de todos ecoar, de boca em boca, de mão em mão. Do delicado ao bruto. 


No momento em que escrevo estas palavras, aguardo ansiosamente para escutar o grito das mãos de Conceição Evaristo em sua releitura de A Hora da Estrela, que ainda não tive a oportunidade de ler na íntegra. Pude acessar um trecho da obra, que nos possibilita pensar sobre os ouvidos enviesados da nossa cultura colonial e o olhar sem espaço para as dúvidas impostas pela sociedade a uma menina-mulher nordestina e pobre. Neste trecho, Conceição Evaristo, uma mulher preta e mineira, escuta Macabéa, a personagem principal da história, de uma forma com a qual a potência de vida substituí o lugar de uma condição assujeitada:

De Macabéa todas as pessoas fantasiavam somente a brabeza do desamparo. Para muitas, a moça padecia de solidão crônica. E ficavam a imaginar a solitária vida de Macabéa. Umas achavam lágrimas em seu rosto. Viam punhados de água secas. Outras assistiam sorrisos vazados de sua boca fechada a sete chaves, donde nem mosquito-riso passava. Muitíssimas ainda escutavam gritos que perfuravam o espaço do nada. Lugar no qual julgavam que ela nadava. E tantas eram as verdades inventadas acerca de Macabéa, que se a pobre sofrente tomasse conhecimento de tudo que era criado a respeito dela, na certa não suportaria tudo em si. Explodiria de tanto ser aquilo que ela nem sabia se era. Havia ainda pessoas que acreditavam que a moça trazia em si um corpo feito de uma interioridade nula e incurável. Vazio próprio de um mal antecedente original. Essas sim, condoídas por ela, choravam. Macabéa, nem sei que não. Creio que a sofrida invenção que criavam para Macabéa doía mais no criador e talvez, bem menos, na criatura. (CONCEIÇÃO EVARISTO)

O encontro entre Conceição Evaristo e Clarice Lispector deixa em evidência os ouvidos seletivos de um sistema neoliberal, marcando a forma pela qual lemos a vida de pessoas marginalizadas pelo sistema. Sendo assim, destaco o conceito de escrevivência, pensado por Conceição Evaristo. Escrever através da vivência, inventar a partir da vida. Em uma entrevista, quando questionada sobre como essa prática de escrita poderia auxiliar e/ou visibilizar mulheres negras, tanto na condição de escritoras, quanto como leitoras, Conceição nos conta:

O que tenho percebido é o seguinte: essa 'escrevivência' tem ajudado outras mulheres a se perceberem. Percebo cada vez mais que, na medida em que essas mulheres se encontram nos meus textos e encontram os meus textos, elas se apossam da vida com muito mais certeza. Acho que a minha escrita tem possibilitado que essas mulheres acreditem mais em si mesmas, que se reconheçam, que sabemos ser muito difícil. (CONCEIÇÃO EVARISTO)

Em sua concepção original, escrevivência nos diz sobre o ato de escrita das mulheres pretas enquanto um movimento que pretende borrar, desfazer uma imagem do passado, na qual o corpo-voz de mulheres negras escravizadas tinha sua potência de emissão sob controle dos escravocratas, homens, mulheres e até crianças. (Evaristo, 2020). A escrevivência carrega a vivência de uma coletividade que se vê diante do silenciamento e dá a possibilidade de gritar por meio da escrita em conjunto com a vida.


Me dei conta de escutar, enquanto leio, uma voz repetindo simultaneamente as palavras processadas por meus olhos. Não consigo fazer de outra forma e nem quero, mas fico curiosa em saber que voz é essa. Não parece minha. Que voz é essa ecoando na minha cabeça enquanto leio letras de uma folha? Talvez, seja uma mistura de todas as vozes que já escutei. No quinto mês de gestação, o bebê começa a ouvir sons. Dentro da placenta, o bebê inicia a ouvir os sons do mundo, de forma nua e crua. A saída da redoma de vidro é um exercício para a vida toda: requer flexibilidade e uma oposição à colonialidade, que não dá espaço para outras vivências e saberes. Acredito que sim, na literatura é possível gritar, mas para escutarmos a literatura gritante, é necessário abrir possibilidade para a alteridade. Quando os olhos apenas passarem pelas letras, é preciso se questionar o que está sendo dito ali e meus ouvidos não puderam captar. Expandir os ouvidos para o que existe além do que já faz parte de nossos marcadores sociais (aquilo que compõe a nossa subjetividade no mundo: gênero, raça, classe, território, religião) e assim, romper com a lógica do silenciamento. Que possamos encher os pulmões e gritar com o que puder e escutar com o corpo todo. Escutar com o corpo todo aquelas vozes que muitas vezes são apenas ouvidas.


WLADYSLAW, Anatol. Os perplexos santos homens (1979); óleo sobre tela.


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REFERÊNCIAS

EVARISTO, Conceição. Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade. Scripta. v.13, n.25, p. 17-31, 2009;


ITAÚ SOCIAL. Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo / organização Constância Lima Duarte, Isabella Rosado Nunes; ilustrações Goya Lopes. 1. ed. Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020;


LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998;


Portal G1, 2014. Cérebro ativa os músculos e ossos só de pensarmos em executar movimento. Bem Estar. Disponível em: <https://g1.globo.com/bemestar/noticia/2014/08/cerebro-ativa-os-musculos-e-ossos-so-de-pensarmos-em-executar-movimento.html>. Acesso: 22 de agosto de 2014;


Quatro Cinco Um. Reescrevivendo Macabéa. Folha de São Paulo. São Paulo, n.º 72, agosto, 2023. Disponível em: <https://www.quatrocincoum.com.br/br/artigos/literatura-brasileira/reescrevivendo-macabea>. Acesso em: 31 de julho de 2023;


REDMOND, Layne. When the Drummers Were Women: A Spiritual History of Rhythm. Nova Iorque: Three Rivers Press, 1997.


SOARES, Lissandra. Escrevivências sobre mulheres negras acompanhadas pela proteção social básica – uma perspectiva interseccional. UFRGS, PPGPSI. Porto Alegre, 2017.


STIGGER, Veronica. O útero do mundo. Museu de Arte Moderna de São Paulo, Outubro de 2016. Disponível em <https://admin.mam.org.br/wpcontent/uploads/2016/10/outerodomundo.pdf>.

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