Brincando de traduzir Shakespeare: treze tentativas
- Mariana Mariotto

- há 15 horas
- 6 min de leitura
Roubei da minha avó um livro de sonetos de Shakespeare. Os poemas foram traduzidos por Aglaia Rezende de Castro Reis, uma senhora paulistana que passou os últimos 30 estudando, interpretando e buscando maneiras de traduzir o Bardo. Quase aos 90 anos, publicou parte dessa pesquisa. Essa foi a minha primeira vez em contato com os sonetos de Shakespeare – até agora só havia lidado com a leitura de algumas peças. Também foi a primeira vez me dispondo a ler sua escrita na língua original, o inglês.

À esquerda, o soneto no inglês elisabetano; à direita, o texto traduzido para o português – ainda assim, muitas vezes incompreensível. Meu incômodo surgiu logo nas primeiras páginas do livro, pois via nelas sonetos completamente diferentes entre si e que não necessariamente exprimiam aquela beleza lida na página da esquerda.
É que Shakespeare escolhe palavras que se combinam perfeitamente e aparenta ser capaz de fazer isso com facilidade, como nesse verso: "By children's eyes her husband's shape in mind”. Li isso com o mesmo olhar de alguém que lê um texto sagrado. Como traduzir isso? Como manter tal simplicidade em tão poucas palavras, ainda assim descrevendo uma questão que até aquele momento existia apenas no mundo das ideias. Aglaia optou pela seguinte tradução: “O seu marido no olhar de um filho”. No português, o verso perde seu efeito, já que a própria língua não permite a mesma construção e escolha das palavras, impossibilitando um verso igualmente curto, leve e simples.
No livro há 77 dos 154 sonetos de Shakespeare, nos quais o poeta coloca suas opiniões sobre o mundo, o amor ou o comportamento social, sem depender de um personagem. Me encantei particularmente pelo Soneto 9, em que Shakespeare indaga a um interlocutor (um homem) do porquê se manter só (Shakespeare usa “single life”, remetendo não apenas ao estatuto de solteiro, mas à solidão em si). Para ele, a morte dessa pessoa seria uma grande tristeza não apenas para uma possível esposa, mas para o mundo. O mundo iria se lamentar, então, como se fosse sua viúva. Sem filhos, não restaria resquício algum dessa pessoa no mundo, ninguém para herdar tal singularidade. Nesse sentido, a “single life” também seria resultado de uma beleza que vive uma única vida, não perpetua nos rostos remanescentes.
Passei o soneto para o meu diário simplesmente vertendo as palavras para o português. Chegando no final, fiquei encucada com o que tinha acabado de fazer. Sem querer, eu já estava brincando de traduzir Shakespeare. Será que só a opção por apagar uma palavra e usar outra no lugar já fez de mim uma tradutora? De qualquer forma, me encantei com esse gesto: o desafio, a dificuldade subterrânea. Como se, diante de mim, o soneto tivesse adquirido um sistema de arqueofácies e eu não mais o observava de forma plana e chapada, mas pelo ângulo de suas inúmeras camadas.
Quando dei por mim, havia repetido o mesmo processo 13 vezes. Nesse trabalho que me deleguei no meio da noite, existia o intuito muito claro de capturar, além da beleza da poesia, a coexistência da simplicidade e da complexidade escondida no poema.
Nessa primeira vez, a que escrevi no diário e que viria a ser a Tentativa nº1, busquei traduzir livremente, apenas pensando no que o poema queria dizer. Não me preocupei com a estrutura do soneto e nem com as rimas. Em seguida, notei que as rimas surgiam naturalmente ao longo do poema, resultado daquela primeira tradução. Na Tentativa nº3, notei que a palavra “mundo” aparecia cinco vezes no original e a palavra “viúva” três. Presumindo que a repetição característica dessas duas palavras era intencional e que deveria ser mantida, me desafiei a manter a mesma quantidade.

Apenas na Tentativa nº5 que passei a pensar na estrutura do soneto: dois quartetos seguidos de dois tercetos (isto é, duas estrofes de quatro versos e duas estrofes de três versos). Para isso, alguns versos ou estrofes inteiras tiveram que ser dissolvidos ou reelaborados já que a Língua Portuguesa nos obriga a utilizar mais palavras do que o inglês – isso por conta dos artigos ou conjunções. Por exemplo: “husband's shape” se transforma em “o formato do marido”. O dobro de palavras.
Na Tentativa nº6, consegui chegar num acordo com as primeiras duas estrofes e foquei principalmente no primeiro terceto, que trazia muitas informações em um espaço menor comparado às primeiras duas estrofes. Nesse trecho, Shakespeare começa a devanear sobre a figura do esbanjador (“an unthrift”) ou seja, aquele que não é comedido, não pensa duas vezes antes de gastar. Essa pessoa, por mais que esbanje pelo mundo, não muda senão seu próprio lugar – sua posição social, o status. Mas de quê vale toda a riqueza e toda a beleza do mundo, se não tem a quem deixar depois? Se o mundo lhe dá beleza em abundância, ela deve então ser utilizada. Do contrário, é desperdício.

Pensei que estava perto de finalizar o trabalho na Tentativa nº8. Na Tentativa nº9 rabisquei o papel inteiro, como se uma ideia totalmente nova tivesse chegado à minha cabeça. Notei que Shakespeare também usa palavras similares ao longo do mesmo verso. É possível encontrar construções como “The world will wail thee”, repetindo não só a letra W, como o som que ela faz na boca. São esses jogos que tentei remontar, praticamente me levando de volta ao começo.

Nas últimas tentativas, acertei alguns detalhes mudando palavras aqui e ali ao longo do poema e dando atenção particular à última parte. Em Shakespeare, os últimos dois versos devem trazer rimas repetidas, surgindo como uma finalização reflexiva, uma “moral da história”. No Soneto 9, o Bardo opina: “No love toward others in that bosom sits / That on himself such murderous shame commits”, ou seja, a pessoa que comete a “mortal vergonha” de desperdiçar a própria beleza, sem compartilhá-la, não tem amor ao próximo.
Talvez a graça, ou mesmo o desafio em traduzir Shakespeare esteja no fato de que não há uma interpretação única, ao mesmo tempo em que esses devaneios particulares devem se encaixar em uma estrutura muito específica: 14 versos decassílabos (ou seja, divididos em 10 sílabas) e um esquema específico de rimas intercaladas, seguidas de um dístico final rimado (ABAB CDCD EFEF GG). Isso sem contar com os jogos de leitura escondidos na repetição de letras, palavras e terminações.
Esse processo de descobrimento da tradução aconteceu pra mim de forma bastante espontânea e intuitiva, sem me aprofundar em grandes estudos – tal como fez Aglaia, que dedicou anos à interpretação e tradução de Shakespeare. Fico humildemente imaginando o trabalho que deu para traduzir esses sonetos todos.
Ao final demorei uma semana para traduzir um único soneto. Me senti cansada, porém satisfeita, como se tivesse passado por uma maratona. Desisti completamente da métrica e da obrigação de intercalar as rimas. Foquei no maravilhamento do processo, que de uma tentativa para outra achava um jeito de me “corrigir” ou tentar algo diferente, que puxava para outra assimilação interessante e outra, como um vício. O processo de edição é infinito, e eu concordei em parar. O que restou não foi uma tradução exemplar, mas um trabalho de lapidação que, aos meus olhos, cumpria com o dever árduo de traduzir uma beleza que ali existia e que demorava a sair, por mais que eu tentasse.



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