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As Coleções que Fazemos: Mídia Física e o Sentido da Arte

Ensaio resgata uma relação pessoal com a mídia física para pensar no sentido e futuro dos objetos artísticos


Dvds e Blu-Rays do autor


Para muitos “jovens adultos” como eu, que foram morar nas capitais a fim de estudar e trabalhar, o final de ano representa um momento de retorno à casa da família. Não que este não aconteça em outros momentos do ano, mas o ritmo do feriado permite uma certa acomodação ali com as pessoas, lugares e objetos que guardam em si uma memória tátil do que fomos no passado. Posters antigos, instrumentos musicais e livros do Stephen King fazem com que uma viagem no espaço também seja uma viagem no tempo. No meu caso, que moro em um apartamento pequeno em São Paulo durante os dias de semana, também deixei em meu quarto, na casa dos meus pais em São Bernardo do Campo, uma de minhas coleções mais preciosas: a de DVDs e Blu-Rays; prateleiras com filmes em mídia física que foram minha faculdade de cinema antes da faculdade de cinema, especialmente durante a adolescência.


Falar de mídia física (especialmente no caso do cinema) é também falar sobre minha história pessoal, e sua confusão com o próprio modo de apreciar cinema. Grande parte da história da cinefilia se estabeleceu de forma geracional e com a partilha das mesmas mídias, lugares de exibição ou objetos. Da geração da Nouvelle Vague com as retrospectivas na Cinemateca Francesa ou as primeiras revistas de cinema no Brasil com os festivais de cinema internacionais e início dos torrents na internet, a maneira como filmes estiveram disponíveis para serem vistos moldou cada experiência de formação estética e produziu diferentes formas de sensibilidade à arte. Dizia Marshall McLuhan: o meio é a mensagem (e a massagem).


Minha cinefilia, no entanto, foi muito idiossincrática e até individual, pois não se constituiu de acordo com a de minha geração – nem temporalmente falando, nem em questão do modo de consumir audiovisual. Nasci em 2000 e, portanto, a maioria dos millennials já diria que pertenço à geração Z. Não cresci frequentando videolocadoras como a Blockbuster (embora ainda guarde, na minha carteira, o cartão de fidelidade do meu pai, que havia encontrado em alguma caixa velha). No entanto, joguei Game Boy, ouvia Sandy & Júnior, cresci acompanhando o lançamento de cada filme da saga de Harry Potter no cinema, me lembro do anúncio da morte de Michael Jackson na TV em 2009 e só usei meu primeiro smartphone quando tinha 12 anos. E, sobretudo, comecei minha cinefilia muito cedo, com alguns DVDs que meu pai tinha em casa – ele sempre foi entusiasta dos novos formatos e guarda, até hoje, a primeira edição em DVD lançada no Brasil, que comprou no lançamento: Era uma vez na América (Once Upon a Time in America, 1984), de Sergio Leone, lançado em DVD de face dupla pela Flashstar, em uma edição em Fullscreen 3x4 e sem extras. 


Lembranças portáteis


Era o momento de ouro da mídia física no Brasil, com abundância de títulos disponíveis à venda em diferentes lojas. Quando já estava com 12 anos e com um interesse grande por séries e filmes (em sua maioria blockbusters americanos; logo em breve, os clássicos do cinema europeu), livrarias como a Saraiva e a Cultura constituíram o ambiente ideal para a descoberta de novos filmes, edições especiais. Promoções de R$ 12,90 nas Lojas Americanas permitiriam arriscar parte da minha mesada de R$ 50,00 para conhecer um filme novo naquela noite. Conseguir as caixas de Friends no formato digipak ou ir de loja em loja para caçar o volume de François Truffaut (então raro) para ter minha coleção “Arte De”, da Versátil, completa, me parecia obrigação lógica de minha experiência como entusiasta do cinema.

 

Na realidade, trata-se da conjunção de uma série de fatores: a vida de classe média perto da capital; a onipresença das Megastores, com seções específicas para discos, em todos os shoppings da região; uma família que sempre incentivou o consumo de audiovisual; e, em seguida, o contato pela internet com uma rede de colecionadores, dos quais eu era sempre o mais novo, para quem a apresentação da embalagem, a qualidade da imagem e som e a quantidade de extras em uma edição rivalizavam com o próprio filme. 


Nesse sentido, o Blog do Jotacê e a Versátil Home Video foram quase tão importantes para a minha formação no cinema quanto a própria sala de exibição – afinal, para mim havia uma relação profunda entre a experiência de assistir a uma obra e a possibilidade de tê-la na minha estante, sempre disponível.


Não demorou muito para que eu criasse, aos 13 anos, um canal no YouTube para falar sobre coleção de filmes e sobre o que estava assistindo no momento, e menos ainda para que chegasse à marca de 7 mil inscritos (posso me considerar uma micro/sub-celebridade de nicho mirim?), uma parceria com a DarkSide Books e o prêmio de revelação do ano na collectorsfera no BJC.


A possibilidade de compartilhar essa experiência com outras pessoas em comunidade, mesmo que soubesse pouco ou nada sobre elas, permitiria aprofundar cada vez mais meu envolvimento no mundo do cinema por meio da mídia física. Como se minha cinefilia fosse mediada pela existência de uma mídia, uma tautologia que produzia tanto uma alienação quanto ao que estava fora desse sistema, quanto uma paixão pela arte através desse fetiche. A coleção era uma porta para os filmes, que, por sua parte, eram portas para o mundo.



***


De certa maneira, seja com filmes, livros, selos, moedas, perfumes ou pedais de guitarra, toda relação de colecionismo parte de uma neurose, da noção de que há uma parte faltando e que, assim que a obtivermos, essa vontade será saciada. Mas assim que o adquirimos, essa falta se projeta em outro objeto e assim continua, em um mecanismo acumulatório. Não estou, de forma alguma, dizendo que isso é ruim: pelo contrário, acredito que ter alguma coleção ou alguma obsessão é essencial para darmos sentido ao mundo.


Penso em Aquarius (2015), de Kleber Mendonça Filho, também um colecionador de filmes, para quem o apartamento da protagonista, repleto de vinis e de fotografias de família, representa a própria história de vida dessa mulher e uma resistência à lógica do capital que quer destruir o passado para trazer em seu lugar uma modernidade asséptica. Essa mesma resistência a se livrar dos objetos e o apego à possessão  é também a base da cinefilia. A arte é sempre um apego à possessão: uma relação de prendimento e desprendimento, de absorção do objeto-obra a ponto de sentirmos que parte daquilo pode ser nosso.


Aquarius (2015) e a memória dos objetos


Não é daí que surge a necessidade de aplicativos como o Letterboxd? Catalogar, fazer listas, mostrar aos outros o que se está assistindo. Nós precisamos de alguma garantia, de algum meio de acreditar que a obra pode ser nossa, de mostrar que ela foi apropriada. No ano passado, também comecei a adicionar em cada filme meu logado uma tag descrevendo o formato em que o assisti: cinema, DVD, sala de aula, torrent, YouTube, e por aí vai.


Cada vez mais, sou tomado por um sentimento de que a maneira como vivenciamos cada obra também determina nossas lembranças, nossas sensações e nosso juízo de valor. Me pergunto quanto do meu gosto para música e cinema não vem desta própria formação com a mídia física, como o fato de ter demorado para assistir diretoras mulheres cujos filmes não haviam sido lançados em DVD no Brasil.


Em um texto sobre Sexta-Feira 13 – Parte 3 (Friday the 13th Part III, 1982), publicado na revista revista francesa La Lettre du Cinéma e traduzido para o português pela Vestido Sem Costura, a crítica Cyrille Pernet resume perfeitamente esta ideia. Para ela, é por meio das características próprias ao VHS que o cinema de terror slasher se realiza em toda sua potência. Em suas palavras:

Quando eu coloquei essa fita no meu videocassete, eu me dei conta que as imagens do filme, ao envelhecer, tinham perdido suas cores e seus contornos. Que barras brancas estriavam a tela, enquanto um barulho de respiração me forçava a recuar para melhor ouvir os diálogos. E finalmente, que essa decomposição da imagem e do som funcionava inteiramente como um elemento narrativo, do mesmo jeito que tal ou tal reviravolta da história. Pois os personagem que se debatiam diante do assassino iriam morrer, eles também. E da mesma maneira, eles iriam apodrecer, se tornar esqueletos. O filme não tinha, na origem, sido concebido para essa tiragem em VHS. Contudo, ele se realizava, encontrava seu sentido, sua concretização, através de um elemento exterior, essa versão degradada dele mesmo.

Sempre me lembro, também, de uma entrevista com Joe Elliott, vocalista do Def Leppard (Viu? Não sou tão Gen-Z assim) em que ele fala sobre como o vinil oferece uma experiência muito mais duradoura com a música do que o streaming. Não se trata de uma lógica de consumo e descarte, mas de uma experiência acumulativa com a obra, de uma fruição que está conectada ao fato de que a arte se produz e permanece presente no próprio espaço em que é apreciada.


Por que falar de mídia física em 2024? Talvez porque nos sentimos cada vez mais distantes de manter uma relação duradoura com as coisas – e com a arte, inclusive – e é justamente isso que DVDs, livros e vinis trazem. Talvez sem o conforto e a disponibilidade da internet, mas com o manuseio analógico que conecta a obra à própria atividade do corpo (colocar a agulha no vinil, organizar uma estante de livros, abrir e fechar uma caixa de DVD).


É difícil falar de objetos, especialmente aqueles do passado, sem incorrer em uma nostalgia improdutiva ou em uma melancolia reacionária (para não dizer ressentimento). Falar de mídia física é não só falar sobre um passado da arte mas também do meu próprio passado, da minha história. Eu nunca encarei meus DVDs como objetos antigos, com pouco a dizer agora. Pelo contrário, na contracorrente do que dita a tecnologia, para mim tratam-se de objetos que apontam ao futuro, à preservação de uma obra em direção a um destino indefinido, cuja aventura devo descobrir. A coleção diz respeito, sobretudo, a um retorno ao objeto, à preservação da obra em direção ao que é possível durar, resistir ao movimento de entropia que nos desnorteia. 


Antes, eu me preocupava em deixar todos os filmes no plástico e guardá-los da maneira mais segura possível, preservando-os como itens de museu. Hoje em dia, entendo como objetos que estão lá para serem aproveitados, assistidos e mantidos vivos, de modo que eu sempre estarei voltando a eles. Há uma organização na minha estante (outro detalhe relevante, que não contei, é que sou do signo de Virgem), mas uma organização muito mais afetiva e pessoal do que sistemática. Se você me perguntar onde está meu dvd de Os Últimos Embalos da Disco (The Last Days of Disco, 1998), de Whit Stillman, não apenas vou saber indicar seu lugar na estante sem olhar, mas também onde e quando foi comprado, e quanto paguei na edição.


Alguns discos do autor


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Muitas coisas mudaram e muito rapidamente. As grandes distribuidoras agora lançam seus filmes direto no streaming. A Cinecolor, última replicadora de Blu-Rays no Brasil, encerrou suas atividades com mídia física em 2022. Por isso, as distribuidoras independentes que agora dominam o nicho produzem seus discos no exterior, a preços mais elevados. Não existem mais grandes livrarias, e poucas das pequenas ainda comercializam discos (uma exceção que venho frequentando é a Livraria da Travessa). É certo que a Criterion Collection continua forte nos Estados Unidos e a Versátil encontrou um público fiel, embora muitos colecionadores tenham desistido ao longo do caminho.


Na faculdade de comunicação, aprendemos que a noção de que uma mídia substitui a outra é um mito muito comum ao longo da história humana. Pois, o livro não extinguiu a narrativa oral, o jornal não substituiu o livro, a televisão não entrou no lugar do cinema e o vinil que muitos julgaram como morto agora faz um retorno surpreendente, por atender a necessidades que não podem ser supridas pelo streaming. Recentemente aderi ao Kindle e percebi que não só venho lendo cada vez mais, como também tenho mais vontade de ler meus livros físicos e manter uma coleção. Não se trata de falar que o público encontrou outras formas de consumir e abandonou as antigas: é o mercado que quer nos impor a obsolescência de certas mídias e o consumo de outras. Como escreve A.O. Scott, crítico de cinema, em seu excelente ensaio sobre o filme A Pior Pessoa do Mundo (Verdens Verste Menneske, 2021), de Joaquim Trier, para o jornal New York Times:

Por que eu, como tantos de meus colegas, me enluto pela passagem de coisas que nem estão mortas? O fim dos filmes, ou pelo menos do cinema, foi declarado e denunciado (e, em alguns casos, celebrado) com progressiva intensidade através do crescimento das plataformas de streaming e o encolhimento das audiências nas salas de cinema ocasionado pela pandemia. O perigo é real, mas pode ser apenas para dizer que as tecnologias de consumo de cultura estão sempre mudando, e que as formas de arte que fluem através dessas tendem a se estabilizar e desaparecer em ciclos imprevisíveis. Pessoas continuam a ler, assistir, ouvir, pesquisar e olhar não apenas para formas de distração e diversão, mas também de sentido e conexão. Jovens o fazem com especial avidez, como se suas próprias vidas estivessem em jogo.

Em um texto recente, o teórico do cinema David Bordwell expõe como a transição do consumo de cinema para o streaming tem impacto na maneira como as obras são entendidas e, inclusive, para a própria pesquisa acadêmica. Contestando a alegação de que o streaming se trata de uma revolução no modo de assistir filmes em casa (isso já havia acontecido quando o VHS introduziu a possibilidade do gerenciamento do tempo pelo próprio espectador), Bordwell ressalta a importância da mídia física para uma distribuição mais generalizada de filmes antigos, que poderiam então ser pausados e vistos com conteúdos extras que ajudariam na pesquisa. A Netflix, pelo contrário, reduz cada vez mais o leque de escolhas, em especial de filmes clássicos, para que seu conteúdo original seja consumido. É só olharmos também para o que aconteceu com a HBO Max no Brasil: há um ano era fácil acessar no catálogo filmes de Howard Hawks, obras do cinema noir e clássicos da Era de Ouro da Warner, nos anos 1930 e 1940. Sem grandes alardes, esses filmes foram quase todos retirados do catálogo e não estão mais disponíveis para serem vistos de maneira legal.


O streaming, afirma Bordwell, é a nova forma encontrada pelo sistema de driblar a pirataria, tão generalizada com os discos físicos. Entendo a função da pirataria para a mídia como a da guerra para o desenvolvimento da tecnologia: constitui um elemento propulsor do desenvolvimento – e o streaming talvez seja um resultado direto disso, mas jamais uma forma final. E nada contra a pirataria: pelo contrário, ela foi absolutamente essencial para a formação de milhares de pessoas, incluindo artistas, e se alguém sofreu com ela certamente não foram os realizadores dos filmes. Como disse, uma mídia não exclui a outra e é perfeitamente possível ter uma coleção de DVDs ao mesmo passo em que assino dois serviços de streaming e baixo um torrent por semana.


Muitos amigos cinéfilos reclamam do fato de que, no Brasil, não existem grandes figuras curatoriais no cinema como tínhamos no passado, que trouxessem à tona obras esquecidas e retrospectivas de grandes cineastas jamais exibidos no Brasil. Mas me pergunto, quantos filmes de Allan Dwan, Jacques Tourneur, Ida Lupino, a Versátil não lançou nos últimos anos? Fernando Brito, curador da Versátil Home Video, talvez seja uma das figuras mais importantes da curadoria de cinema no Brasil, no que diz respeito ao resgate da história do cinema de forma disponível e relativamente acessível (uma coleção com 4 filmes em DVD da distribuidora sai por cerca de R$ 60,00). Muitos dos quais, inclusive, sequer se encontram em trackers privados como o Making Off – quiçá o Karagarga, cujo acesso é limitadíssimo, e olhe lá.



Mas quantos dos jovens apreciadores de cinema pensam na mídia física como este (ainda) importante lugar de descoberta para filmes? A curadoria está, como sempre, mascarada sob a mídia que domina, e mesmo os cinéfilos mais radicais se recusam a enxergar que talvez o DVD (e o Blu-Ray, em menor escala) continue a saída mais radical e contestatória no consumo de cinema hoje, como aponta o crítico Richard Brody, e não apenas um lugar de apreciação nostálgica daquilo que já acabou.


***


Se algo morreu em relação à mídia física, é o senso de comunidade que ela trazia. O “vou te emprestar esse livro porque pensei em você, mas me devolva, por favor”, dar um DVD de presente como um gesto de partilha. Parece impensável que alguns dos propagadores de cultura que admirávamos em um passado não muito distante (booktubers, críticos de revista, etc) logo se revelariam defensores de gurus de extrema-direita e outras aberrações. A comunidade que unia pessoas em suas diferenças certamente está morta pelo mesmo movimento que busca o fim da mídia física e a intersecção da política com as mídias sociais. O que nos resta é fundar uma nova comunidade, uma que talvez encontre na mídia física uma forma de resistência e de preservação da arte.


Não sei o que será da minha coleção daqui a 50 anos. Mas também não sei como será o streaming, ou mesmo o cinema, para falar a verdade. Antes de decretar um fim apocalíptico, que aproveitemos as coisas como elas são, sem excluir as memórias e as possibilidades que os objetos de arte nos trazem no presente.



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