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A arte de montar quebra-cabeças

Gostaria de começar o ano compartilhando um hobbie que me traz muitas reflexões: montar quebra-cabeças. No final do ano passado, em um momento de bastante sobrecarga de trabalho, decidi montar O Nascimento de Vênus¹, em um tipo de ritual de concentração, presença, calma - e prazer também. Como costuma acontecer quando monto quebra-cabeças, tive várias reflexões, tão simples como potentes. Me lembrei de um texto que escrevi no comecinho de 2021, para o blog que mantive durante a pandemia, quando montei meu primeiro quebra-cabeça grande. Hoje, gostaria de compartilhar esse texto revisitado, acrescido de novas reflexões e aprendizados que outros quebras-cabeça e experiências me trouxeram.


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Depois de pouco mais de um mês, terminei o quebra-cabeça que decidi montar numa espécie de metáfora e desafio para o ano. Me dei conta de que montar um quebra-cabeça pode ser um ótimo exercício para processo criativo.        



O quebra-cabeça ser a imagem da Mona Lisa² facilitou a aproximação da montagem com o processo artístico: conforme encaixava as peças e a figura ia se formando, pude perceber a complexidade da variação de cores (ainda que as cores da pintura tenham mudado e se diluído ao longo do tempo), dos detalhes, da composição; e me relacionar com a criação daquela imagem. Fui me apaixonando pela Mona Lisa mais do que ao vê-la ao vivo ou pelas leituras que já fiz sobre a obra, o que me fez pensar que todo tipo de criação exige que nos apaixonemos pelo objeto de trabalho, que mergulhemos nele, beirando, às vezes, uma certa obsessão.



Obsessão essa que vem de uma concentração extrema, da tensão psíquica de que fala Fayga Ostrower, em Criatividade e Processos de Criação (Editora Vozes, 1977). Essa concentração específica de quando entramos num estado de “flow”, um estado quase meditativo no qual só existe você e o processo, você e o objeto que toma forma. Acredito que trabalhar com a matéria desencadeie ainda mais esse tipo de concentração: a fisicalidade tem poder sobre nós.


Na montagem de um quebra-cabeça, fica claro que quanto mais nos dedicamos a alguma coisa, mais a conhecemos; e assim mais fácil fica lidar com ela. No começo, todas as peças são iguais, mas com o tempo e a persistência, começamos a diferenciar as variações de cores e os formatos das peças com facilidade - e a desenvolver técnicas para montagem: nos tons de azul/verde e bege, relacionei as cores, nos tons de preto e marrom, fui pelos formatos, testando, muitas vezes, peça por peça até encontrar a certa. Um trabalho de paciência e dedicação.



Dividir as peças em grupos, seja por cores ou por formatos, foi essencial. É mais fácil entender e administrar grupos pequenos de coisas, dando a atenção devida para cada uma delas, como o famoso “um dia de cada vez”. E fazendo isso, pude entender um pouco mais dos meus limites, habilidades e formas de pensar: em quantos encaixes consigo me concentrar ao mesmo tempo? Quantas soluções consigo buscar por vez? Normalmente uma.


O fato de essa atividade durar dias, sem que houvesse muita perspectiva de finalização ou mesmo possibilidade de estabelecer metas, foi bastante enriquecedor. Exercitei a concentração prolongada e a calma - temas bastante delicados hoje em dia - e pude conviver com o projeto, o que considero essencial para criação artística.



Precisei estar atenta aos meus limites - a cabeça e a vista começavam a cansar - e aos do material. Tinha horas que parecia que as peças não queriam ser encontradas e horas que praticamente pulavam no lugar certo (a sorte, ou o acaso, parecem ter seu papel em todo tipo de processo). Em muitos momentos, precisei parar, fazer outra coisa, para em seguida voltar e sentir o trabalho fluir. As coisas tem seu tempo. Nós temos nosso tempo. Saber perceber e respeitar isso é fundamental.


Depois desse mais de um mês de dedicação, emoldurei a Mona Lisa para valorizar meu trabalho e lembrar dessas reflexões. Já O Nascimento de Vênus, um tanto pela diferença mais clara de cores, um pouco pela prática, finalizei em menos de uma semana e optei por outra abordagem: desmontar o quebra-cabeça. Não focar no resultado e não ter medo do processo; aceitar refazer o que já estava, a princípio, resolvido. Retornar e ver as coisas de novos ângulos, aprender de novo, de formas diferentes. Não evitar o trabalho, a repetição;  abraçar o tempo. Sinto que a criação se faz por aí.



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NOTAS:

¹ O Nascimento de Vênus (Nascita di Venere, 1483) é um quadro do pintor italiano Sandro Botticelli (1445-1510) encomendada por Lorenzo di Pierfrancesco de Médici (1463-1503) para sua residência Villa Medicea di Castello. Técnica: Têmpera sobre tela. Dimensões: 172,5m × 278,5m . A obra faz parte do acervo da Galleria degli Uffizi, em Florença (Itália).


² Mona Lisa (La Gioconda, 1503-1506) é um quadro do pintor italiano Leonardo da Vinci (1452-1519) encomendado pela família Giocondo. Técnica: Têmpera sobre tela. Dimensões: 77 cm × 53 cm . A obra faz parte do acervo do Musée du Louvre, em Paris (França).

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