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Histórias de Toshiko Ishii: do barro ao bordado

  • Foto do escritor: Mariana Mariotto
    Mariana Mariotto
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura

Exposição em Brumadinho (MG) resgata o legado da ceramista japonesa naturalizada no Brasil


Foi na Fazenda Palhano, na região de Brumadinho, que Toshiko Ishii (1911-2007) viveu e produziu por quase 40 anos. Restaurada, a casa de batentes azuis se tornou a sede do Instituto Toshiko Ishii – dirigido pela neta, a designer Nao Yuasa, e Júlio Souki. O espaço será reaberto ao público em 22 de agosto, durante o evento de inauguração do instituto.


O azul é uma cor de muita força no Japão. Destacado em 116 noren, tecidos que permitem a transição entre os ambientes, o azul é sinônimo de serenidade. A opção pelos noren azuis evoca o vento, que transpassa os tecidos e corre pelos batentes, deixando a história de Toshiko se espalhar por toda a atmosfera da casa.


Noren na janela da casa de Toshiko Ishii, com uma foto da artista. Foto: Renato Imbroisi
Noren na janela da casa de Toshiko Ishii, com uma foto da artista. Foto: Renato Imbroisi

Azul também remete ao calor extremo, é a cor do fogo quando atinge altas temperaturas. Aos 70 anos, a artista de Kyoto começou a pesquisar o barro com apoio de Adel Souki e Erli Fantini, ceramistas mais jovens, atuantes até hoje, responsáveis por apresentar e inserir Toshiko nesse universo. Nos anos 2000, Inês Antonini se juntou para compor esse grupo de pesquisadoras criativas: o quarteto trocava referências, livros e revistas estrangeiras, um intercâmbio geracional e cultural que, de alguma forma, funcionava no meio de tantas línguas e traduções, com apoio fundamental nas imagens.


O grupo se inspirou na esmaltação com cinzas, técnica japonesa em que se utilizam cinzas de palha de arroz. Em solo mineiro, optaram pela palha de coqueiro e de bananeira, um processo contínuo de aproveitamento da materialidade local. Outra característica do grupo é o uso de fornos tipicamente japoneses, como o anagama e o noborigama, em que as peças são queimadas à lenha por muitas horas ou dias em temperaturas que ultrapassam os 1100ºC.


Por dentro do forno anagama de Adel Souki. Mini-doc realizado em 2021 por Leonardo Melo e Leliane de Castro, disponível no YouTube
Por dentro do forno anagama de Adel Souki. Mini-doc realizado em 2021 por Leonardo Melo e Leliane de Castro, disponível no YouTube
Da esquerda para a direita: Nobue (filha de Toshiko), Erli (acima), Toshiko, Inês e Adel. Acervo Instituto Toshiko Ishii
Da esquerda para a direita: Nobue (filha de Toshiko), Erli (acima), Toshiko, Inês e Adel. Acervo Instituto Toshiko Ishii

Essa relação de cocriação com o entorno se manteve durante toda a vida de Toshiko Ishii e sua família. O legado é preservado por diversos projetos de capacitação e valorização da comunidade local oferecidos pelo instituto. A primeira dessas ações foi o desenvolvimento da coleção Congado com as Bordadeiras da Serra da Moeda, projeto dirigido por Cristiana Pereira Barretto e Renato Imbroisi entre 2018 e 2020, envolvendo cerca de 30 mulheres da região.


Essa parceria foi retomada em 2026 para criar intervenções bordadas em fotografias do arquivo do Instituto Toshiko Ishii, impressas nos noren azuis. Os desenhos são baseados nas pinturas e poesias em haiku de Toshiko, que remetem não apenas às paisagens da fazenda, mas também à produção familiar que aqui era realizada: criação de gado, piscicultura, plantação de pitanga, produção de geleia de jabuticaba, queijos e outros laticínios.


Designer de artesanato, Renato Imbroisi assina a curadoria da exposição Do barro ao bordado com produção de Nao Yuasa, Julia Mesquita e Cristiana Pereira Barretto. A equipe apresenta esse conjunto de formas artísticas que celebram a trajetória e a influência de Toshiko Ishii na cerâmica da região do Vale da Serra da Moeda.


Aos 70 anos, Toshiko começa a estudar cerâmica. Acervo Instituto Toshiko Ishii
Aos 70 anos, Toshiko começa a estudar cerâmica. Acervo Instituto Toshiko Ishii

SERVIÇO

Do barro ao bordado

dias 22 e 23 de agosto

sábado, das 11h às 19h

domingo, das 11h às 16h

Moinho do Vale da Serra da Moeda

Brumadinho (MG)

Entrada gratuita


NOTA

A primeira versão deste texto foi escrita para o catálogo da exposição, bem como serviu de base para o texto de parede.

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