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Filmes de Gente

Resenha analisa os curtas-metragens Filme Particularmente Ordinário  e Eu Faço Loucuras por Você da produtora independente Barra3 Filmes


“Filmes de gente” – é assim que se define a Barra3 Filmes, produtora independente sediada em São Paulo e fundada por Lucas Lyrio e Amanda Doria, egressos do curso de cinema da Academia Internacional de Cinema (AIC). Vivemos tempos tão estranhos, tanto dentro quanto fora do cinema, que chega a ser difícil entender o que seriam “filmes de gente” – feitos por pessoas, com pessoas, sobre pessoas, para pessoas? Mas, afinal, não seria todo filme assim?


A resposta, é claro, não é tão simples. Há certo valor em reconhecer o toque humano por trás de uma obra de arte, um valor que se aproxima do artesanato, de algo que não pode ser realizado senão a partir de um olhar mundano. Os filmes da Barra3 se colocam nesse lugar dos filmes “ordinários”, quiçá amadores; são como um último recurso em meio a um mar de imagens que parecem ter perdido sua origem – não à toa a constante referência a Jonas Mekas (1922-2019), pai de um cinema que busca beleza nas coisas banais e cotidianas. São filmes casuais, que pescam suas histórias nas ruas de São Paulo; narrativas especiais que poderiam ser qualquer outra; personagens solitários, duplos perdidos. Como na música de John Lennon: a vida acontecendo enquanto fazemos outros planos.


Sobretudo, são obras que nascem de sua realidade de produção: abraçam o mundo ao invés de afastá-lo; respeitam a existência das pequenas coisas, dos defeitos, dos descontroles e dos imprevistos. São filmes que, direta ou indiretamente, traçam uma imagem do ser no mundo, narrativas universais que partem de experiências muito particulares na cidade de São Paulo – um lugar que parece estrangeiro mesmo para os que ali habitam. Por mais diferentes que sejam os dois filmes, são unidos por um mesmo sentimento do mundo e por uma forma de fazer cinema que detém o olhar naquilo que geralmente se esconde – uma câmera companheira, atenta e observadora (como todo amor, nasce do exercício de escuta e do olhar).


Filme Particularmente Ordinário (2023), dirigido por Lucas Lyrio, é feito inteiramente a partir de imagens de arquivo – sejam elas pessoais ou trechos de outras obras do cineasta. Um filme que tem, em sua origem, o desafio de buscar valor no que, como bem se refere o título, é ordinário. Se fosse gravado em formato analógico, poderíamos pensar que seria uma colagem feita a partir de películas jogadas no lixo (uma câmera velha com imagens de outra pessoa, a quem se não conhece; um trecho de alguém ensinando a outra pessoa como operar o foco na câmera e por aí vai).


No entanto, não se trata somente de constituir uma narrativa a partir do que é comum, do que é banal, mas de buscar imagens onde elas geralmente não são procuradas – nos pontos cegos da experiência. Daí a beleza em se reconhecer como ordinário: o cinema está ali na vida, inscrito no piso do Minhocão. A ficção (e a encenação mais rigorosa, como no momento em que três amigos conversam em um quarto e uma delas é enquadrada exatamente na moldura de um espelho) se confunde, em uma linha tênue, com os registros descompromissados, com as câmeras tremidas, desfocadas e ligadas quando ninguém pediu.


E esse olhar para o banal se transforma em uma reflexão profunda, quase elegíaca, sobre nossa relação com as imagens e sua onipresença no mundo. A quantidade de telas e texturas no filme chama atenção: vai da projeção de um jogo de Xbox no início às texturas das primeiras câmeras digitais, além das telas de celular sempre próximas. Em meio a tantas imagens, eis o desafio: como fazer aquilo que é corriqueiro voltar a ganhar sentido de espanto, sua novidade? Esta é a resposta de Lucas, ao falar sobre as imagens de outras pessoas, vistas na câmera comprada em um brechó: “se parar pra pensar, essas pessoas passaram a existir pra gente agora”. Por isso, nada melhor do que o cinema para aproximar um pai de um filho, dotar suas vistas ordinárias de um significado especial. E o cinema não pode ser feito senão entre amigos e família.


Eu Faço Loucuras por Você (2024), dirigido por Gabriela Queiroz, é quase um documentário sobre uma personagem ficcional, flagrada na cidade, interpretada com muitas nuances por Mauriceia Rocha. Há uma ironia (nunca cínica, mas sim doce) em retratar essa personagem que, trabalhando com mensagens de amor, entrega aquilo que ela própria não recebe e tanto deseja. Como se justamente aquela que possui o artifício e o romance como trabalho estivesse perdida na mais dura realidade documental – reforçada pela figuração natural e pelo mundo que nunca para de acontecer no segundo plano de todas as imagens do filme. Há, sobretudo, muito cuidado e atenção nessa dialética entre as imposições da realidade de produção e as intenções ficcionais de sua encenação. É uma relação sempre instável que atinge, progressivamente, a harmonia dos belos filmes.


O olhar, que oscila entre câmeras de mão típicas do Cinema Direto – com zooms e movimentos bruscos – e momentos mais contemplativos de uma composição mais rebuscada, parece ter um interesse genuíno nessa mulher, em cada momento de dúvida visto em seu rosto. É como se, não podendo intervir na realidade que registra, a câmera fosse cúmplice (e até companheira) de sua solidão, de suas loucuras de amor. E se existe amor em São Paulo, ele é um homem vestido de coração e fumando um cigarro no centro da cidade – cuja existência não percebemos, por mais próximo que esteja. Coisas que só o cinema enxerga.


*

SERVIÇO

Filme Particularmente Ordinário e Eu Faço Loucuras por Você estão disponíveis gratuitamente na plataforma Estranhos Encontros até 14 de julho de 2024.


NOTA

Este texto foi publicado originalmente na plataforma Estranhos Encontros como parte da mostra exibida durante o mês de junho e julho. Foi editado por Karen Lemes e Luiz Afonso Morêda para a publicação na plataforma. Pequenas alterações no corpo do texto foram feitas pela Galérica de forma a adequar o texto à nossa padronização.

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