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Olga Ravn e os funcionários do Século 22

Em um ambiente esterilizado, asséptico e com uma aura futurista, esculturas são posicionadas de acordo com suas diferentes formas. Algumas são imbuídas de caráter volupto e maleável, outras de caráter rústico, se assemelhando a fósseis e rochas. Couro, mármore, pele e aromas são explorados em Consumed Future Spewed Up as Present (2018), uma instalação da artista visual dinamarquesa Lea Gulditte Hestelund inspirada nas novas possibilidades da ficção científica, dividida em três partes (The Arrival Room, The Corridor, The Inner Space) e exibida no Instituto de Arte Contemporânea de Copenhagen.

Esculturas que integram o ambiente The Arrival Room da exposição Consumed Future Spewed Up as Present. (Imagem: Divulgação/Anders Sune Berg e Lea Guldditte Hestelund)


Esculturas que integram o ambiente The Inner Space da exposição Consumed Future Spewed Up as Present. (Imagem: Divulgação/Anders Sune Berg e Lea Guldditte Hestelund)


Durante os preparativos para sua instalação, Hestelund entrou em contato com Olga Ravn, uma romancista e poetisa dinamarquesa que fez sua estreia literária em 2012 com uma coletânea de poemas. A intenção era que Ravn escrevesse brevemente sobre o material da exposição numa espécie de folheto, mas logo a interação entre as duas artistas foi firmada, a escrita fluiu e o texto resultante foi publicado como um romance sob o título de De Ansatte (2018), publicado no Brasil pela Editora Todavia com o título Os Funcionários em junho de 2023, com tradução de Leonardo Pinto Silva. A tradução para a língua inglesa, realizada por Martin Aitken, foi finalista do Booker Prize em 2021; o que levou o romance de Ravn a ser traduzido para outras línguas, inclusive o português.


O enredo se passa no Século 22 e é narrado a partir de depoimentos dos funcionários da Nave Seis Mil, um experimento que concentra humanos e humanóides rumo à exploração de um novo planeta. Nela, os funcionários que devem maximizar a produtividade das tarefas que lhes são atribuídas, começam a ser entrevistados por membros do comitê interno após uma mudança significativa no comportamento dos humanóides, que se recusam a falar com os humanos ou dar continuidade às suas relações com eles.


Ao observar a instalação que inspirou sua escrita, é possível sentir que indivíduos irão surgir das colunas para declamar os depoimentos em sequência dissonante. Eles são enumerados, breves e pouco dotados de objetividade: um grande enigma ou um grande vácuo, termos usados por um dos funcionários para relatar sua experiência pessoal na tripulação. Para o leitor, os escritos de Ravn se estabelecem como um reflexo da vivência dos personagens que a autora constrói: todos são uma peça no tabuleiro de um bem maior, o trabalho - da mesma forma, quem lê é uma peça no tabuleiro de uma performance escrita.


Nesse ambiente de trabalho não importa o gênero, a sexualidade, a cor, ou até mesmo a humanidade. Todo traço de individualidade é obliterado. Os sentimentos são oprimidos, podem ser considerados um erro de atualização. É importante se manter neutro, pois isso eleva as condições de produtividade e produtividade é lucro. O humanóide é mais valioso do que o corpo originado de entranhas e biomoléculas, são seres produzidos ao longo de 18 meses e em pouco tempo de treinamento estão prontos para o labor, não é preciso dar à luz, amamentar e criar, esses são problemas humanos.

“...Cada vez que olho para ele posso senti-lo entre minhas pernas e meus lábios. Eles ficam úmidos. Apesar de não haver, necessariamente, nada lá. Os caçadores da minha equipe o chamam de strap-on reverso.” (Trecho do Depoimento 014 em “Os Funcionários”, de Olga Ravn)

Em contrapartida, uma gama interpretativa aflora-se ao ler sobre tais objetos não caracterizáveis, assim como florescem os sentidos de quem os toca e os acaricia. Na nave, os artefatos se encontram em salas podendo emitir sons, ruídos e cheiros que inundam as narinas. Os funcionários podem sentir-se sexualmente estimulados ao reconhecer seu gênero em um dos objetos suspensos, ou podem ser levados a uma ruptura emocional ao se depararem com o holograma de seu filho. O solo, o pôr do sol, a amamentação e os atos mais banais realizados na Terra também podem surgir a partir dessa conexão.


Ravn constrói seu enredo com naturalidade e sem o propósito de entregar grandes reviravoltas. Com frequência é descritiva e embarca no lirismo poético quando propõe-se a falar das atividades terrenas que passam despercebidas, mas carregam consigo o significado de uma integração social. Sua escrita funciona como um tele(micro)scópio: num momento o leitor se aventura pelo relevo do ambiente gélido da nave em que os personagens se inserem; em outros, se depara com um espiral de cenas, um microcosmo de emoções comuns a todos os seres humanos, estabelecendo uma intersecção dessa distopia com o contemporâneo.

De maneira tácita, a autora está constantemente brincando com as diferentes estruturas da ficção literária ao deturpar a estética esperada para um romance. Os depoimentos flertam com a ficção científica e com o experimentalismo, seu scribbling (termo Woolfiano adaptado como “veia escrevinhadora” por Elena Ferrante) a permite moldar o léxico e corrompê-lo sem que haja perda de seus propósitos e efeitos.


Os Funcionários não oferece respostas, mas sim questionamentos. Isso não interfere em seu mérito; pelo contrário, sua construção consegue englobar uma variedade de tópicos que são inerentes ao futuro da vida na Terra, como: condições de trabalho, inteligência artificial, conexões com a arte e colonização de outros planetas. Essa teia intrínseca de temas só é possível de ser estabelecida por meio da ausência: é papel do leitor preencher lacunas e achar um fio condutor no meio dessa narrativa que beira o onírico.


Assim como as esculturas de Hestelund, os fragmentos que constroem o livro intrigam, provocam, clareiam, obscurecem e oferecem novos meios para pensar sobre (parafraseando o jornalista britânico James Bridle) uma ecologia da tecnologia. As duas artistas, com suas respectivas obras, tornam possível a reflexão do “ser”, que vai além de nossa definição de vida, da matéria biológica palpável e crível perante os nossos olhos.


Serviço

Os Funcionários (De Ansatte), de Olga Ravn

Tradução: Leonardo Pinto Silva

Capa: Estúdio Arquivo – Hannah Uesugi e Pedro Botton

Gênero: Ficção Científica

Páginas: 136

Onde comprar: Editora Todavia - R$ 64,90

As obras de Lea Guldditte Hestelund, como Consumed Future Spewed Up as Present podem ser conferidas em seu site.


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